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SONDAGEM

É possível manter amizades com colegas de trabalho?
Sim. Tenho amigos no trabalho por quem ponho a mão no fogo.
Sim, mas não é o meu caso.
Sim, mas com alguma reserva sobre a vida privada.
Não. Há demasiada intriga e competição.
Depende do carácter dos colegas.

ASSERTIVIDADE CONJUGAL


Numa relação amorosa é importante que as pessoas consigam comunicar eficazmente. E isso só é possível se os membros do casal estiverem aptos a utilizar determinadas habilidades sociais, como a assertividade e a resolução de problemas.

Embora esteja cada vez mais difundida, a assertividade continua a não fazer parte do léxico de muitos portugueses. Importa, por isso, defini-la:

Assertividade [conjugal] é a expressão directa, honesta e clara de sentimentos, pensamentos, necessidades e opiniões, sem ferir, humilhar ou faltar ao respeito de forma intencional [ao cônjuge].

Embora possamos dizer que existem pessoas mais assertivas do que outras, importa, desde já, salientar que ninguém é sempre assertivo. No entanto, a capacidade de implementar comportamentos assertivos constitui uma grande vantagem para atingir o sucesso no plano conjugal. Assim, os casais mais felizes são aqueles que mais desenvolveram esta habilidade e que a usam na maior parte das suas interacções.

Como referi atrás, o comportamento assertivo implica honestidade e clareza. No entanto, a assertividade não pode ser confundida com a frontalidade a qualquer preço. A segunda postura é mais agressiva, hostil e violadora dos sentimentos do interlocutor.

Por outro lado, para que um comportamento seja classificado de assertivo, é importante que a honestidade não seja acompanhada de grandes níveis de ansiedade. Isto é, os membros do casal devem ser capazes de expor pensamentos, opiniões ou necessidades sem experimentar angústia.

Assim, uma pessoa assertiva deve ser capaz de:

- Expressar as suas opiniões, mesmo que estas sejam diferentes das do cônjuge. Ao fazê-lo, não deverá sentir-se nervosa. Uma pessoa assertiva reconhece o direito à igualdade, pelo que lida de forma eficaz com a diferença de opiniões. Reconhece que a assertividade é a forma mais eficaz de encontrar consensos ou, simplesmente, aceitar as diferenças.

- Dizer não a um pedido do cônjuge, desde que o considere injusto. Amar alguém não deve implicar o recurso a comportamentos submissos. A capacidade de dizer não, acompanhada de uma justificação legítima, não abala o romance. Pelo contrário, impede que os membros do casal acumulem frustrações ou se anulem na relação conjugal.

- Receber e fazer elogios. Uma pessoa assertiva reconhece a importância dos elogios, pelo que não perde uma oportunidade para valorizar os comportamentos positivos do cônjuge. Não se centra apenas nos erros do companheiro, pelo que promove a sua auto-estima. Demonstra, assim, a capacidade para observar os erros mas também os bons actos.

- Fazer comentários negativos legítimos. Há muitas formas de criticar – algumas mais construtivas do que outras. Uma pessoa assertiva não tem medo de criticar o seu cônjuge, pois fá-lo sem qualquer tipo de humilhações. A hostilidade é substituída pela capacidade de criticar um erro específico, acompanhada pelo reconhecimento dos esforços já efectuados pelo cônjuge.

Quando uma pessoa não é capaz de ser assertiva, recorre a um de três tipos de comportamentos: passivo, agressivo ou manipulativo. Mas sobre isso “falaremos” outro dia…

DISCUSSÕES NO CARRO


Os dois temas implícitos no título deste texto traduzem duas preocupações a que me tenho dedicado quer do ponto de vista profissional quer do ponto de vista pessoal: o conflito conjugal e a prevenção rodoviária. Embora esta última não constitua uma área a que me dedique enquanto especialista, constitui uma fonte de desassossego a que procuro dar voz através dos meios de que disponho.

Mesmo que não tivesse tido contacto directo com o problema da sinistralidade rodoviária, não poderia, enquanto cidadã portuguesa atenta às notícias, deixar de me inquietar com os números que dão conta da posição portuguesa no “ranking” dos acidentes de viação. Somos, a este nível, um país com muito a aprender.

Enquanto psicóloga e, particularmente enquanto terapeuta conjugal e familiar, esta inquietação cruza-se com aquele que tem sido nos últimos anos o grande foco do meu trabalho: a (in)satisfação conjugal.

Como já tive oportunidade de referir aqui, o conflito não é mau em si mesmo. Já disse e repito: os casais que não discutem preocupam-me muito mais do que aqueles que fazem das batalhas a dois um modo de vida. Claro que as duas situações inspiram cuidados e requerem intervenção especializada.

Tão inevitável quanto outras áreas da conjugalidade, o conflito não pode ser uma constante da vida de um casal. E é preciso “aprender a discutir”, ou seja, é preciso aprender a expressar necessidades opostas, desejos contraditórios e opiniões antagónicas SEM ULTRAPASSAR DETERMINADOS LIMITES! É preciso que existam fronteiras muito bem definidas que permitam separar uma discussão acalorada do profundo desrespeito. Afinal, é aí que reside a capacidade de continuar a lutar pela relação, apesar dos obstáculos. Pelo contrário, quando os membros do casal ultrapassam esta barreira, permitem que sentimentos pouco nobres se sobreponham ao amor que os uniu.

O trabalho em contexto clínico mostra que é com relativa facilidade que os casais portugueses enveredam por discussões intensas dentro do carro. Muitas destas altercações estão na base de rupturas impulsivas. É verdade: em muitos casos o bate-boca evolui para alterações fisiológicas significativas que se traduzem em dores de cabeça, aceleração do batimento cardíaco, suores, gritarias e, de repente… BUM!

“BUM!” pode significar a saída repentina de um dos membros do casal (com o carro em andamento ou após uma travagem brusca), um toque, um despiste, ou um acidente com repercussões mais graves. O estado de nervos a que os membros do casal se expõem no meio do trânsito é proporcional aos danos provocados e, infelizmente, estes ultrapassam frequentemente a esfera material.

Apesar da minha preocupação em relação a estes cônjuges insatisfeitos, não posso deixar de experimentar alguma indignação, já que estes impulsos implicam muitas vezes o sofrimento de pessoas com pouco ou nenhum voto na matéria: as crianças que tantas vezes assistem a estas batalhas móveis (sendo sempre vítimas) e os ocupantes das viaturas que se envolvem involuntariamente nos acidentes.

Quando confrontadas com os riscos que as discussões no carro implicam, quase todas as pessoas alegam, a posteriori, que conhecem os seus limites e que jamais colocariam a vida dos seus filhos em risco. Ainda que involuntariamente, mentem a si mesmas. Quando alguém se enerva brutalmente no meio da condução, acelerando desmesuradamente e forçando a viatura a travagens bruscas, ESTÁ A ULTRAPASSAR OS LIMITES! Está a expor as crianças a riscos desnecessários e está a transmitir modelos de comportamento impróprios para quem está ainda a estruturar a sua personalidade.

Embora seja difícil, é preciso saber parar a escalada de violência. Quantas vezes já referi que “quando um não quer, dois não discutem”? Mesmo que um dos cônjuges pareça ter por objectivo massacrar a cabeça do outro, é importante assumir o compromisso de viajar em segurança. No final do percurso, se possível longe das crianças, será mais fácil expor ideias aparentemente incompatíveis.

Nota: Num só dia tive acesso a duas histórias clínicas em que esta capacidade esteve ausente: a L. e o V. terminaram uma relação de alguns anos depois de uma discussão que culminou com a saída da L. do carro a meio da viagem; o J. e a M. expuseram os seus filhotes a algumas manobras perigosas porque não souberam gerir de forma eficaz as suas emoções.

QUANDO O CÔNJUGE SE TRANSFORMA NUM ESTRANHO

Um casal pode ser feliz durante anos e, ao fim desse tempo, começar a percorrer caminhos diferentes. A passagem do tempo implica, para alguns casais, a constatação de que já não partilham o mesmo projecto de vida. Pelo contrário, os casais que investem nesse projecto a dois, alimentando-o de forma activa e regular, tendem a sentir-se satisfeitos por mais tempo.

Existem alguns factores potencialmente desencadeadores do afastamento entre os membros do casal, no entanto, estes estão quase sempre associados a dificuldades de comunicação.

A Célia e o Francisco casaram muito jovens. Ambos trabalhavam e as poupanças permitiram que vivessem de forma desafogada no início do casamento. Alguns anos mais tarde, já com dois filhos, o Francisco decidiu voltar a estudar, o que implicou menos tempo disponível para a família. Apesar de a entrada para a faculdade ter sido decidida a dois, esta mudança acarretou um afastamento progressivo entre o casal.

O tempo passado na faculdade constituiu uma oportunidade de o Francisco alargar os seus horizontes, conhecer pessoas novas e escapar da rotina do seu quotidiano. No entanto, as responsabilidades domésticas passaram a recair maioritariamente sobre a mulher, Célia. Os tempos livres do casal diminuíram significativamente, bem como os pontos de interesse.

O Francisco sentia-se culpado por não poder contribuir tão activamente nas tarefas que até então pertenciam aos dois. Por outro lado, o cansaço levava a que a sua disponibilidade para os problemas familiares fosse cada vez menor. Além disso, consciente de que a mulher estava a ser sobrecarregada, o Francisco evitava partilhar as suas próprias dificuldades académicas.

O facto de a Célia ter optado por aliviar o marido dos problemas familiares implicou uma saturação pessoal e a sensação de abandono.

A partilha e o apoio emocional mútuo existentes no início da relação deram lugar ao afastamento e à procura de compreensão através dos amigos. O Francisco sentia-se mais satisfeito rodeado dos colegas de faculdade e a Célia encontrou apoio nos colegas de trabalho.

O pedido de ajuda ocorreu alguns anos depois de o Francisco ter concluído o curso. Nesta altura, a Célia tinha partilhado com o Francisco que, embora não tivesse sido infiel, tinha sentido uma atracção por um colega de trabalho. A possibilidade de aparecer uma terceira pessoa fez soar o alarme para o casal, apesar de as dificuldades terem surgido muito tempo antes.

A passagem dos anos implica muitas mudanças, algumas imprevisíveis. Os desejos pessoais também se alteram, pelo que é essencial que o casal tenha a capacidade de inovar o seu projecto a dois. Caso contrário, tenderão a efectuar percursos paralelos e, a partir de certa altura, sentirão que já não conhecem a pessoa com quem estão casados.

Importa referir que, para além da diminuição da tolerância e do espírito de sacrifício, característica dos tempos que vivemos, existe outro factor que pode contribuir para a precipitação do divórcio: o facto de homens e mulheres trabalharem rodeados de pessoas do sexo oposto que estão livres. Passamos cada vez mais tempo no local de trabalho, o que nos leva a desenvolver relações afectivas com as pessoas que trabalham connosco. Se as dificuldades conjugais não forem alvo de reflexão conjunta dentro da própria família, tenderão a agudizar-se. Paralelamente, as pessoas que compõem a rede profissional parecerão mais disponíveis, compreensivas e, consequentemente, maiores fontes de bem-estar.

ENCONTROS DE UMA NOITE

Fui recentemente confrontada pela Imprensa com um estudo segundo o qual os portugueses são recordistas em encontros de uma noite (mais conhecidos como “one night stands”). A jornalista pedia a minha colaboração enquanto psicóloga. As questões giravam à volta da descrição do contexto em que estes números se inserem. O que é que temos de diferente? Que características tem a nossa sociedade, e a vida nocturna portuguesa em particular, que favoreçam estas estatísticas?

Em primeiro lugar, devo confessar que fui apanhada de surpresa com tal revelação. Como a generalidade dos portugueses (não só psicólogos), estou familiarizada com o fenómeno, mas estava longe de imaginar que pudéssemos ser recordistas na matéria. Se tivesse que adivinhar, apostaria mais no povo americano (talvez influenciada por séries de TV como “O Sexo e a Cidade”).

Não sendo especialista na matéria, procurei reflectir sobre potenciais factores que permitissem compreender esta realidade. Assim, recordei o facto de Portugal ainda ser um país agarrado à tradição do casamento – para o bem e para o mal. Independentemente de olharmos para os centros urbanos ou para a longínqua ruralidade, continuam a existir demasiados casos de pessoas que casam devido à pressão mais ou menos explícita daqueles que os rodeiam. Ora, se já é difícil manter um casamento quando se casa por amor e com convicção, imagine-se o que representa fazê-lo para corresponder às expectativas de outrem. Calculo que os encontros de uma noite façam (ainda) mais sentido nestes casos. Afinal, as pessoas menos assertivas, ou seja, aquelas menos capazes de expor os seus verdadeiros sentimentos e opiniões com medo de serem julgadas, estão mais expostas a situações de infidelidade. Caem, portanto, facilmente neste tipo de situações.

Acrescentei ainda uma segunda variável potencialmente explicativa do elevado número de encontros de uma noite: o consumo abusivo de álcool. Como é possível ler no “Curtas” da barra lateral deste blogue, estima-se que cerca de 10% da população portuguesa tenha problemas relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas. Mais: os jovens bebem cada vez mais e cada vez mais cedo. Em relação a esta questão não é difícil perceber as consequências: o álcool descontrai, mas também pode levar-nos a situações de que nos arrependamos horas depois. Sem querer emitir juízos de valor, preocupa-me sobretudo que o inebriamento provocado pela bebida dê lugar a comportamentos de risco. Afinal, quanto maior o número de parceiros sexuais (cujo “histórico” é absolutamente desconhecido), maior a probabilidade de ocorrência de doenças sexualmente transmissíveis. Conheço relativamente bem os hábitos anti-concepcionais dos jovens portugueses e temo que o uso do preservativo não seja muito frequente aquando destas saídas.

Não deixo, no entanto, de me questionar: até que ponto é que estas duas variáveis contribuirão para perceber estes dados? Que outros factores explicarão a crueza destas números?

EXPRESSÃO FÍSICA DO AMOR


Retomo hoje o tema dos pilares do amor romântico. Depois de falar sobre o peso do apoio emocional e da expressão verbal do amor, centro agora a atenção na expressão física. O toque, os beijos, os abraços, as carícias, em suma, os gestos característicos de uma relação amorosa são (ou deveriam ser) uma constante entre duas pessoas que se amam e que desejam nutrir a relação.

Mas o facto de a generalidade das pessoas valorizar esta variável da conjugalidade não quer dizer que haja concordância universal quanto ao seu peso. De facto, e tal como tenho enfatizado de forma sistemática, pessoas diferentes atribuir-lhe-ão graus de importância diferentes, como acontece noutras áreas da vida a dois. O mais importante passa, então, por conseguirmos agradar à pessoa que está ao nosso lado, satisfazendo as suas necessidades, sem que isso implique um grande sacrifício. A palavra sacrifício soa-me, aliás, fora de contexto quando a associo à expressão do amor romântico.

A verdade é que há muitas pessoas que se queixam da diminuição progressiva destes gestos depois do fulgor do início do namoro. Nalguns casos parece que o amadurecimento e a solidez da relação são inversamente proporcionais à ocorrência destes mimos. Esquecemo-nos de mimar o nosso cônjuge? Acomodamo-nos depois de a conquista estar assegurada? Somos influenciados pelo desinvestimento do nosso companheiro? Cada pessoa colocará a si mesma estas questões e procurará responder com maior ou menor dificuldade.

A rotina e o cansaço são justificações muito usadas em ambiente clínico. Os casais lamentam que a intensidade das suas vidas profissionais lhes roube disponibilidade e atenção a estes gestos. Mas de que servem estes lamentos se nada for feito para remar contra a maré? E como se explica que, apesar dos afazeres laborais, consigamos ser bons amantes no início do namoro, independente da idade? Quem reconhece que o amor não sobrevive sem esta dinâmica encontra sempre tempo para mimar e reivindica a mesma dose de mimos.

É importante ter em consideração que a reflexão sobre a importância dos gestos de carinho não deve resumir-se aos beijos-mais-ou-menos-automatizados que alguns casais trocam de manhã e à noite ou a andar de mãos dadas durante as visitas ao centro comercial. Se experimentar fechar os olhos e pensar num beijo romântico aperceber-se-á que isso tem muito pouco de automático ou de efémero. Então, por que é que alguns casais abrem mão desta mais-valia?

A seguir ao desgaste provocado pelo quotidiano, a diminuição do investimento do cônjuge é a segunda justificação mais frequente. “Cansei-me de dar tudo e não receber nada”, dizem alguns. Percebo a ideia, mas não a aceito. Se não estiver feliz, o mais lógico é que reivindique aquilo que mereço, em vez de me resignar. Quanto mais cedo os membros do casal se aperceberem de que não estão a comportar-se da mesma maneira e expuserem as suas necessidades, as suas carências e os seus desejos, maior a probabilidade de resgatarem o bem-estar conjugal. A passividade é a nossa pior inimiga: permite que o tempo passe e, sem darmos por isso, arriscamo-nos a acordar tarde de mais.

Não gostaria de terminar este texto sem chamar a atenção para o facto de as diferenças inter-individuais poderem implicar maior ou menor à vontade na expressão física do amor em público. Algumas pessoas são condicionadas pela rigidez da sua educação e, por isso, não são capazes de concretizar os mesmos gestos de carinho em público como em privado. Como é lógico, isto pode gerar algum desconforto e acelerar o “desconfiómetro” do cônjuge. “Se me beija em privado, por que não o faz na presença de familiares e amigos? Quererá mostrar-se disponível para alguém?”.

Estas diferenças são facilmente contornáveis, desde que os membros do casal conversem abertamente sobre elas. O diálogo franco e aberto afasta os equívocos e restabelece o equilíbrio. Mas atenção: nem todas as desculpas são válidas! Se o desconforto surgir de um momento para o outro, implicando uma mudança de comportamento, deixa de fazer sentido. Se um dos pilares do amor vai perdendo fôlego, algo está por resolver na relação e merece uma intervenção.