PÁGINA INICIAL     |     ANSIEDADE      |     AUTO-ESTIMA     |     CONJUGALIDADE     |     DEPRESSÃO     |     DIVÓRCIO     
DOENÇA E MORTE     |     EDUCAÇÃO DOS FILHOS     |     FOBIAS     |     INFERTILIDADE     |     INFIDELIDADE      |     INTELIGÊNCIA EMOCIONAL      
MULHER     |     PADRASTOS E MADRASTAS      |     PSICOTERAPIA      |     VIOLÊNCIA      |     ÁLCOOL

SONDAGEM

É possível manter amizades com colegas de trabalho?
Sim. Tenho amigos no trabalho por quem ponho a mão no fogo.
Sim, mas não é o meu caso.
Sim, mas com alguma reserva sobre a vida privada.
Não. Há demasiada intriga e competição.
Depende do carácter dos colegas.

VÍDEOS DO PROGRAMA "AS TARDES DA JÚLIA"

Partilho hoje dois excertos da minha participação no programa "As Tardes da Júlia" de 14 de Julho de 2009. O tema foi "A minha primeira vez".





AS TARDES DA JÚLIA


Volto esta Terça-feira, dia 14 de Julho, ao programa "As Tardes da Júlia" para abordar o tema "A minha primeira vez". Não se tratará de Sexualidade, mas de histórias engraçadas de situações triviais experimentadas pela primeira vez já na idade adulta.

VÍDEOS DO PROGRAMA MUNDO DAS MULHERES

Partilho hoje alguns excertos da minha participação no programa "Mundo das Mulheres" de 8 de Julho de 2009. O tema foi "Procrastinação".








MUNDO DAS MULHERES


Volto esta Quarta-feira, dia 8 de Julho, ao programa "Mundo das Mulheres" para abordar o tema "Procrastinação".

COMO COMETER SUICÍDIO



Existirão formas mais “eficazes” de cometer suicídio? O que separa o suicídio das tentativas “falhadas” ou do para-suicídio? Não sendo este um resumo de receitas macabras, importa esclarecer o alarmismo do título: a Internet é uma fonte inesgotável de informação e, infelizmente, a oferta na área dos distúrbios emocionais é tão abrangente quanto perigosa. Por outro lado, qualquer psicólogo saberá que a agonia e o desespero por detrás de uma tentativa de suicídio nem sempre chegam a um gabinete de Psicologia ou a um consultório médico. A Internet é muitas vezes a primeira e única “porta” a que estes doentes recorrem.

Assim, este é um texto sobre depressão major, mais do que sobre o suicídio. A verdade é que mais de 15% destes doentes cometem suicídio, o que indicia o subdiagnóstico e o subtratamento da doença.

Já aqui explorei os factores subjacentes ao aparecimento de um transtorno depressivo, bem como os sinais e sintomas da doença que tantas vezes conduz a tentativas de suicídio. Resumidamente, há 3 sinais/sintomas que, quando se manifestam em simultâneo durante mais de duas semanas, indiciam a existência de uma depressão major:
1. Fadiga ou falta de energia.
2. Insónia (dificuldade em adormecer) ou hipersónia (aumento das horas de sono).
3. Isolamento social (evitação de actividades que impliquem o contacto com outras pessoas).

Se algum leitor veio parar a este blogue na sequência de uma pesquisa sobre o suicídio, esta é uma oportunidade para reconhecer que não está só. Sente-se triste, desorientado, sem rumo? Então, saiba que não é o único. A informação sobre a doença é apenas um dos passos para uma nova abordagem aos problemas aparentemente irresolúveis.

Tratando-se de uma doença muito incapacitante, nem sempre é fácil reconhecer uma luz ao fundo do túnel. Para alguns, a esperança reside no apoio médico e farmacológico; para outros, a saída está no apoio psicológico; muitos beneficiam de uma abordagem multidisciplinar que combina a prescrição de medicamentos com a intervenção psicoterapêutica. Em todos os casos, o processo de recuperação é gradual, requerendo tolerância e investimento. E ainda que um pedido de ajuda possa esbarrar na insensibilidade e/ou inexperiência de alguns técnicos de saúde, vale a pena tentar de novo.

A intervenção especializada permite que, progressivamente:
• Haja uma redução dos níveis de ansiedade e de desespero;
• Surjam novas abordagens acerca dos problemas pessoais, familiares ou sociais;
• Seja desenvolvida uma aliança terapêutica, essencial à manutenção e conclusão do tratamento;

O percurso não é fácil, mas esta é uma luta possível.

INFANTOCRACIA: QUANDO AS CRIANÇAS MANDAM NOS PAIS


É cada vez mais frequente assistir-se a debates mais ou menos fervorosos acerca da (in)disciplina das nossas crianças. Se, por um lado, é verdade que têm existido mudanças muito positivas no desempenho do papel parental – as gerações mais novas são, de um modo geral, melhores pais do que as gerações mais antigas – também há que reconhecer que nalgumas famílias impera aquilo a que frequentemente se chama infantocracia. E o que é a infantocracia? É o modelo familiar que se caracteriza pelo facto de os pais girarem à volta dos filhos. Não estamos a falar de pais mais altruístas, ou de um amor maior. Estamos, isso sim, a falar de uma das maiores formas de violência que é possível incluir na educação de uma criança.

Em muitos casos a origem deste padrão comportamental está precisamente no facto de estes adultos terem sofrido – muitas vezes na pele – as agruras de uma educação marcada pela austeridade e pelo autoritarismo. Mas até que ponto será justo descarregarmos as nossas mágoas na educação dos filhos? Afinal, a permissividade, a incapacidade para dizer não ou os sentimentos de culpa associados à definição de limites são tão ou mais nocivos do que o autoritarismo.

A verdade é que uma criança que cresça sem limites não tolera a espera, é incapaz de adiar a satisfação, o que tem implicações severas para a sua socialização. É que os outros adultos e as crianças com quem conviverá a partir do momento em que for para a escola não estarão à altura das suas expectativas ou dos padrões a que está habituada. Em casa, a mãe é capaz de adiar uma ida à casa de banho para lhe contar pela 40.ª vez a história preferida… Fora de portas é difícil gerir a frustração.

Dominados por sentimentos de pena e de culpa – muitas vezes pelo facto de estarem todo o dia fora a trabalhar – alguns pais sentem dificuldade em dizer não às vontades dos filhos. Assim, os desejos das crianças transformam-se facilmente em leis a que os adultos da casa se submetem praticamente sem contestar. Claro que há dias mais difíceis, em que o pai ou a mãe explode. O facto de ter acumulado outras preocupações está quase sempre na origem de uma espécie de sequestro emocional que toma a forma de uma palmada.

E o que é a palmada, senão uma explosão de raiva do adulto? Não, eu não defendo a ideia de que uma simples palmada – muitas vezes indolor – seja especialmente traumática. Mas também não acredito nos seus efeitos pedagógicos. Uma criança pequena dificilmente associará o castigo físico ao seu comportamento. No máximo, sentirá a dor provocada pelo açoite e aprenderá que, quando suficientemente irritados, os adultos podem adoptar este comportamento.

A criança desarrumou os brinquedos? Deve ser ela a arrumá-los. Não arruma? Então, não joga Playstation, não vê televisão nem acede ao computador. Estes castigos são tão mais eficazes quanto mais coerentes forem os adultos. Se os pais forem rigorosos, o que implica manter-se firmes em relação aos castigos, por exemplo, conseguirão educar os filhos com autoridade e disciplina. Mas o exemplo dos pais também conta – de que adianta tentar educar os filhos no sentido de cooperarem com estas tarefas se os pais deixarem as suas próprias coisas espalhadas pela casa?

Mesmo as crianças pequenas são perfeitamente capazes de perceber e interiorizar regras e de estabelecer a associação entre mau comportamento e castigo. Contudo, é importante que os pais (e os outros educadores) expliquem aos seus filhos o que esperam deles ANTES de qualquer castigo. Assim, quando o seu filho se estrear a decorar as paredes da sala com os lápis de cor, importa que possa dizer-lhe que estes só podem ser utilizados no papel. Esclareça que, se o comportamento se repetir, haverá um castigo (defina claramente a medida a aplicar no futuro). Escusado será dizer que, em caso de reincidência, a coerência é fundamental. Fechar os olhos aos erros das crianças é um comportamento regular, mas as consequências são invariavelmente nefastas.

Como ninguém reconhece autoridade a pessoas injustas, é importante não subestimar a importância dos elogios. Sempre que uma criança se esforça por melhorar o seu comportamento deve ser elogiada CLARAMENTE. É preferível dizer “Fico contente por teres emprestado o teu carrinho ao outro menino” em vez de “Muito bem!”.

Quando o mau comportamento se torna persistente, pode ser útil “importar” algumas das estratégias da Psicologia, nomeadamente da área cognitivo-comportamental: os calendários. Elabore um calendário e afixe-o na porta do frigorífico. Diariamente atribua um símbolo ao comportamento da criança (por exemplo, usando o sol, a nuvem e a chuva). Defina – e explique claramente – o que espera do seu filho. É importante definir um esquema de castigos e recompensas justo e consistente.

Outra das estratégias que recomendo com frequência é o timeout, normalmente como resposta às famigeradas birras. A ideia é definir um local da casa – normalmente o quarto – onde a criança deve ficar durante alguns minutos e acalmar-se SOZINHA. De um modo geral, aplica-se um minuto por cada ano da criança. Claro que, se o objectivo é ignorar a birra e forçar a criança a reflectir sobre o seu comportamento, o local escolhido não deve ter televisor ou computador. Como sempre, é preciso que os filhos acreditem no que os pais dizem, pelo que se o pai ou a mãe lhe disser para ir para o quarto e ficar ali até que o chamem, deverá manter-se firme.

Lembre-se de que a sua credibilidade nestas matérias vale ouro. Assim, frases como “Se voltares a atirar os talheres para o chão, NUNCA MAIS vês televisão” podem minar a sua autoridade. Definir castigos e recompensas REALISTAS é a única via para o sucesso (leia-se, para ser respeitado).

O ÁLCOOL MATA


O alcoolismo é uma doença crónica. Como noutras adições, a dependência da substância (álcool) é o principal “rosto” do problema. Como já tive oportunidade de referir aqui, o facto de este ser um hábito enraizado e socialmente aceite dificulta muitas vezes a assunção e o reconhecimento da doença. Mesmo que o doente se sinta muitas vezes obcecado com o consumo ou não seja capaz de controlar o número de bebidas que ingere, a negação é muito mais frequente do que seria desejável.

Nalguns casos, existe um problema relacionado com o consumo de álcool, mas os sinais e sintomas são mascarados por tentativas mais ou menos eficazes no sentido de manter os compromissos sociais e profissionais. A verdade é que o consumo abusivo de álcool e o alcoolismo constituem autênticos problemas de saúde pública, cujas repercussões se estendem às relações familiares, ao trabalho, à gestão financeira e à saúde física.

Estou certa de que a generalidade dos leitores já terá ouvido maravilhas acerca do potencial terapêutico de um copo de vinho. De facto, existem alguns benefícios cardiovasculares associados ao consumo MODERADO de álcool, em particular na população idosa. Mas isso não diminui o grau de perigosidade inerente ao descontrolo, já que se estima que hoje o álcool seja responsável por cerca de 4% das mortes em todo o mundo. Na Europa os números são ainda mais assustadores: 10% das mortes podem ser directamente relacionadas com esta substância legal. Este é um problema que atinge homens e mulheres e que afecta sobretudo a população jovem.

Sabia que o consumo excessivo de álcool está na origem de doenças fatais como o cancro, ataque cardíaco ou cirrose? Ou que uma mulher que ingira três bebidas alcoólicas por dia aumenta em 15% a probabilidade de vir a sofrer de cancro da mama? Sim, o álcool é um agente carcinogéneo, infelizmente subestimado.

Tratando-se de um distúrbio que não afecta “apenas” o próprio, importa reconhecer que estamos a falar de uma doença tratável. O acompanhamento médico/ farmacológico, a Psicoterapia individual e familiar e os grupos de auto-ajuda formam uma abordagem multidisciplinar que pode dar resposta ao problema.

RESILIÊNCIA


Para algumas pessoas, o mundo divide-se entre os mais afortunados – leia-se, aqueles a quem tudo corre bem – e os outros – ou seja, aqueles que são “perseguidos” pelos azares da vida. De acordo com esta teoria “de bolso” o sucesso é quase inteiramente dependente da sorte e as vitórias individuais têm sobretudo a ver com a ausência de obstáculos. No entanto, vivemos todos rodeados de histórias de vida que contrariam esta ideia preconcebida. Se é verdade que existem pessoas a quem todos os azares da vida parecem acontecer e que fazem questão de se queixar deles com regularidade e veemência, pontualmente somos confrontados com pessoas aparentemente mais “corajosas”, que enfrentam as adversidades com garra, com optimismo e até com um sorriso.

Perante um obstáculo – que tanto pode ser a perda de emprego, uma doença súbita ou até a perda de alguém de quem se gosta – é possível reagir de maneiras muito diferentes. Já reparou que existem pessoas que respondem às dificuldades sobretudo através do queixume e da vitimização, enquanto outras se centram no futuro e no que há a fazer? Aquilo que as diferencia é uma competência psicológica chamada resiliência e que consiste na capacidade de adaptação ao stress, à adversidade, ao trauma e à tragédia. As pessoas menos resilientes tendem a sentir-se sufocadas pelos problemas, independentemente da sua natureza, sendo muito mais propensas a mecanismos patológicos de reacção à adversidade, como o abuso de substâncias. São também mais vulneráveis ao aparecimento de transtornos depressivos e ansiosos.

As pessoas mais resilientes são capazes de olhar para a própria vida de uma perspectiva mais abrangente, encontrando motivos para sorrir no meio dos seus problemas. De um modo geral, lidam melhor com o stress e com as dificuldades que enfrentam. Sim, porque as pessoas mais resilientes também têm problemas sérios! Mas mantêm-se mais estáveis perante o caos desencadeado pelas dificuldades.

Ser resiliente não significa ser à prova de tudo, pelo que alguém que possua esta competência psicológica não está imune a quebras. Por exemplo, uma pessoa resiliente que seja afectada por uma doença séria pode até passar por um período marcado por distúrbios do sono, mas tenderá a cumprir as suas responsabilidades com rigor, indo trabalhar diariamente como é hábito e mantendo o seu optimismo em relação à vida em geral e à sua recuperação em particular.

Não se pense, por isso, que as pessoas mais resilientes são mais fortes, mais frias ou que sofrem menos perante a morte. A intensidade da dor não se mede pelo grau de lamentos. Uma pessoa resiliente está atenta às suas emoções e é capaz de reconhecer que precisa de ajuda e de a procurar – seja através da sua rede social, seja através de técnicos profissionais. É por isso que estas pessoas estão, genericamente, mais protegidas em relação a perturbações como a depressão, a ansiedade ou o pânico.

Seja perante uma situação de assédio moral no trabalho ou uma doença oncológica, a reacção das pessoas mais resilientes contém um elemento comum: em vez de se “afundarem” com o problema, fechando-se sobre si mesmas, estas pessoas centram-se nos seus recursos e optam por aprender alguma coisa com a adversidade.

Ser resiliente é:
• Ser capaz de encarar a mudança como um desafio, e não como um drama;
• Tomar as rédeas da própria vida, assumindo as decisões que dela fazem parte;
• Ser optimista, apesar das adversidades;
• Ser capaz de desenvolver relações afectivas próximas e estáveis;
• Ser capaz de brincar com situações stressantes;
• Ter auto-confiança;
• Acreditar que é possível aprender com todas as situações da vida;
• Ser capaz de reconhecer que se precisa de ajuda;
• Ser capaz de identificar a quem se deve pedir ajuda;
• Gostar de desafios.

Embora existam diferenças de personalidade que façam com que alguns de nós sejamos mais optimistas e resilientes do que outros, é possível promover esta competência ao longo da vida. Como já disse antes, um dos pilares da resiliência é a existência de relações afectivas próximas, pelo que é fundamental que abramos espaço para as pessoas de quem gostamos. Investir nas nossas relações familiares e sociais é a melhor via para que nos sintamos ouvidos e apoiados quando precisamos. Dar passos no sentido de sair da concha pode implicar maior envolvimento com a vida comunitária, o que para algumas pessoas é aterrador. Mas essa rede é imprescindível para ultrapassar os períodos mais difíceis.

Ter “poder de encaixe” para aceitar que se faça piadas com situações mais ou menos catastróficas é outro factor importante. Quando ouvimos um doente com cancro brincar com a própria doença, podemos, à primeira vista, achar que está em negação. Mas os estudos mostram que o humor pode ajudar-nos a lidar com a dor.

No meio da tempestade pode ser muito difícil reconhecer alguma lição de vida, mas quando temos oportunidade (ou quando nos damos ao trabalho) de olhar para trás e reflectir sobre os obstáculos que já ultrapassámos, identificamos quase sempre aprendizagens importantes. As maiores tragédias da vida também nos trazem ensinamentos importantes, pelo que é importante olhar para o obstáculo do momento como mais uma oportunidade.

Alimentar uma visão optimista acerca da vida pode passar por exercícios tão simples como enumerar diariamente duas ou três situações com que nos tenhamos sentido satisfeitos – essas excepções, essas coisas boas, podem funcionar como sinais de esperança.

Continuar a mimar-nos física e emocionalmente é outro factor de estabilidade. A existência de dificuldades não deve constranger a participação em actividades de que gostamos e que nos mantêm entusiasmados, como a prática de exercício físico, uma boa alimentação, encontros com os amigos, etc.

Claro que não há resiliência sem proactividade e isso implica ser flexível o suficiente para aceitar a mudança, ser capaz de definir objectivos realistas e identificar aquilo que deve ser feito para se ser bem-sucedido, em vez de adoptar uma atitude expectante, miserabilista ou pura e simplesmente esperar que os problemas desapareçam.

É importante que sejamos suficientemente inteligentes para perceber que, independentemente do “tamanho” da conta bancária, do carro que se conduza ou do sucesso que se tenha, todas as pessoas carregam as suas “cruzes”, todas as vidas são pontuadas por tristezas e desilusões. A vida é mesmo assim. Podemos “apenas” contar com uma atitude mais ou menos optimista/ perseverante em relação a esses reveses.

PAIS ANSIOSOS, FILHOS ANSIOSOS


Uma parte substancial das situações clínicas que acompanho corresponde a pedidos de ajuda relacionados com problemas conjugais. Não trabalho exclusivamente com casais, mas a terapia conjugal (e a terapia individual centrada nesta área da vida) ocupa um lugar central no meu dia-a-dia clínico. Independentemente da natureza das dificuldades que possa estar na origem do pedido de ajuda, há uma questão que aparece quase sempre no topo das minhas preocupações: o impacto dos problemas na estabilidade emocional dos filhos, particularmente se se tratar de crianças. Às vezes são os próprios pais que manifestam a sua preocupação, mesmo que não haja alterações no comportamento dos filhos. A percepção de que uma crise conjugal é avassaladora leva-os a presumir que, por muito que se esforcem por ocultar as discussões, as crianças estarão a sofrer. Nos outros casos sou eu que trago o assunto para a terapia. Compete-me tentar perceber, a partir das descrições dos adultos, até que ponto será útil propor uma avaliação ao estado emocional das crianças, já que elas são, indiscutivelmente, o elo mais fraco da família. Por maior que seja o seu sofrimento, por maiores que sejam as suas dúvidas, as crianças dependem dos seus educadores para que haja o reconhecimento de que precisam de ajuda. Acontece que uma crise conjugal pode obscurecer a percepção dos pais – emaranhados nos problemas do seu casamento, nem sempre são capazes de identificar os sinais de alarme. Além disso, as crianças podem esforçar-se activamente para manter um comportamento exemplar, numa tentativa hercúlea de proteger os pais de mais uma fonte de problemas.

Se existir algum transtorno depressivo ou ansioso em pelo menos um dos membros do casal, torna-se ainda mais pertinente o despiste de dificuldades específicas das crianças. Ouvi-las em contexto terapêutico pode ser útil quer em termos de resposta às dificuldades existentes, quer em termos preventivos.

É conhecida a relação entre a existência de um transtorno depressivo ou ansioso e a estabilidade emocional das crianças. No entanto, esta avaliação pode enfrentar um problema perigoso: o estigma. Para alguns adultos a ideia de verem os seus filhos num consultório de Psicologia é aterradora. Não sendo propriamente fácil lidar com o facto de eles próprios precisarem de ajuda especializada, é-lhes ainda mais difícil encarar a possibilidade de esta ajuda ter de ser extensível às crianças. Condicionados por rótulos sem sentido e por ideias mais ou menos preconceituosas, podem levar esta resistência ao limite, o que potencia o risco a que as crianças estão expostas. Comparo esta relutância ao medo irracional que faz com que alguns adultos fujam dos hospitais – acreditam que, se forem consultados por um médico, aumenta a probabilidade de se “encontrar” alguma doença e, por isso, passam anos sem qualquer acompanhamento. Escusado será dizer que se arriscam a pedir ajuda tarde de mais.

Um estudo recente sobre o impacto dos transtornos ansiosos dos adultos na vida dos seus filhos mostra a importância de um olhar atento aos membros mais novos da família. A pesquisa mostra que os filhos de adultos a quem tenha sido diagnosticado um transtorno ansioso têm uma probabilidade de sofrer também desse tipo de perturbações sete vezes maior à das outras crianças. O atraso no reconhecimento do problema pode levar a estados depressivos, abuso de susbstâncias e diminuição do rendimento académico.

A intervenção terapêutica, centrada na ajuda aos pais no sentido de melhor identificarem (e mudarem) os comportamentos que possam estar na origem da ansiedade das crianças e na promoção de competências que permitam que as crianças lidem melhor com os problemas e aprendam a resolvê-los, permite reduzir o aparecimento de sintomas. Resumidamente, importará que os pais sejam capazes de alterar comportamentos relacionados com protecção excessiva, hipercriticismo e expressão exagerada de medo e ansiedade à frente das crianças.

DETECÇÃO DA DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA


Apesar de se tratar de um problema que afecta uma grande parte da população jovem, a depressão na adolescência continua a ser um transtorno subdiagnosticado. Na verdade, poucos adolescentes deprimidos recebem acompanhamento adequado. Como na esmagadora maioria dos casos os adolescentes estão dependentes dos pais – do ponto de vista financeiro, mas também ao nível das deslocações, por exemplo-, o pedido de ajuda depende não só da forma como o adolescente se sente, mas também da comunicação que existe na família e da percepção que os pais (e outros educadores) têm (ou não têm) acerca do problema. A estas barreiras juntam-se outras preocupações: o custo do tratamento, aquilo que os “outros” podem pensar, dificuldades em encontrar um profissional adequado e dificuldades em conciliar o horário do adolescente com o horário dos pais.

Nalguns casos o transtorno depressivo só é “descoberto” quando as consequências se manifestam em termos académicos ou quando o comportamento do adolescente desencadeia problemas sérios de relacionamento.

O que é alarmante é que diversos estudos nesta área têm demonstrado que um adolescente deprimido que não receba tratamento adequado tem maior probabilidade de enveredar por caminhos menos saudáveis, como o consumo de álcool e drogas, gravidez precoce, depressão na idade adulta e até suicídio.

A adolescência é, como se sabe, a fase da vida em que queremos, sobretudo, ser “normais”, iguais aos outros. Qualquer diferença ou vulnerabilidade sobressai entre o grupo de pares e pode ser alvo de sarcasmo ou até de violência (física ou psicológica), como acontece no Bullying, pelo que é fácil perceber porque é que alguns adolescentes resistem ao tratamento. A ideia de que alguém da escola ou do grupo de amigos possa tomar conhecimento de que aquele jovem está a ser acompanhado por um psicólogo ou que está a fazer medicação antidepressiva pode ser aterradora. Ninguém quer ser visto como “anormal”, como um “freak”. No entanto, o facto de negarem a existência do problema e não receberem acompanhamento adequado pode levá-los a comportamentos inadaptativos que os fazem sobressair pelos piores motivos. 

Os professores, os psicólogos escolares e os médicos de família constituem recursos fundamentais na detecção precoce do problema e no encaminhamento de cada situação. Não havendo propriamente nenhuma medida 100% segura, cada uma das pessoas que contribui para a educação/ formação de um adolescente pode ajudar em alguma medida para que um número maior de adolescentes receba tratamento adequado.