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SONDAGEM

Aceitaria uma proposta de emprego de que não gostasse apenas por dinheiro?
Não. O dinheiro não é tudo na vida.
Não sei. Dependeria da remuneração em causa.
Talvez, desde que me sentisse capaz de o fazer.
Sim. Fá-lo-ia até conseguir juntar dinheiro para poder fazer aquilo de que gosto.
Sim, sem dúvida.

DEPRESSÃO NA GRAVIDEZ E VIOLÊNCIA DAS CRIANÇAS

Há algum tempo que me dedico ao aprofundamento do estudo da depressão durante a gravidez. Tratando-se a depressão de um assunto sensível, são conhecidos os medos associados à prescrição de medicamentos. Para muitas pessoas, tomar antidepressivos ainda acarreta o medo de se tornarem dependentes desta substância e/ou de que esta os deixe ainda mais incapacitados. No caso específico da depressão na gravidez, a resistência aos antidepressivos toma outros contornos, já que a questão está longe de ser consensual mesmo entre a classe médica.

Sem esta ajuda importante, o acompanhamento das grávidas com depressão fica muitas vezes restrito à Psicoterapia, que não está, ainda, ao alcance de todos. Deste modo, e porque o estigma desta doença é aumentado neste período em função das expectativas que se criam em torno daquele que é, aos olhos da sociedade, um dos momentos mais belos na vida de uma mulher, há muitas grávidas que não recebem qualquer tipo de tratamento para a depressão.

Como se sabe, esta falta de acompanhamento é perigosa, quer para a mãe, quer para o bebé. Mas se os estudos sobre a depressão pós-parto e o seu impacto no desenvolvimento da criança são relativamente conhecidos, o mesmo não é verdade em relação aos estudos longitudinais. O que acontece, afinal, a estas crianças quando crescem? Haverá algum impacto provocado pela depressão durante a gestação? Uma investigação, no mínimo, provocatória vem dizer que sim, sugerindo que as crianças cujas mães sofrem de depressão durante a gravidez têm maior probabilidade do que as outras de evidenciar comportamentos anti-sociais na vida adulta.

Além disso, este estudo também mostra que as mulheres que evidenciam comportamentos agressivos e disruptivos na adolescência são mais propensas à depressão na gravidez, pelo que a história de vida das mães pode ser preditora do comportamento anti-social dos filhos.

Tendo entrevistado 120 mulheres quando estavam grávidas, depois de darem à luz e quando os seus filhos tinham 4, 11 e 16 anos, os autores do estudo mostraram que as grávidas que sofreram de depressão durante a gravidez eram 4 vezes mais propensas a ter filhos adolescentes violentos (avaliados aos 16 anos) – quer se tratasse de um rapaz ou de uma rapariga. Esta correlação entre depressão na gravidez e violência das crianças não poderia ser explicada por outros factores, como a classe social, a estrutura da família, a etnia, a idade da mãe, a educação, o estado civil, o QI ou o diagnóstico de depressão noutros momentos da vida das crianças, pelo que se torna clara a necessidade de apoio terapêutico às grávidas com depressão.

PERTURBAÇÕES DE HUMOR

Felizmente, as perturbações de humor estão cada vez mais na ordem do dia. Felizmente? Sim, porque isso implica que se pergunte mais, que se estude mais, e que se contribua para a ignorância e o estigma que circundam este tipo de doenças. Infelizmente, o facto de os transtornos como a depressão ou a perturbação bipolar serem alvo de reportagens sérias e cuidadas não é suficiente para que os doentes não se sintam olhados de lado, discriminados, diminuídos.

Estas são doenças comuns – se o leitor nunca sofreu de uma perturbação de humor, é quase certo que conheça alguém que esteja a viver ou que já tenha vivido esta experiência (um familiar, um amigo ou um colega de trabalho). Qualquer leitor deste blogue sabe que é difícil falar abertamente sobre o problema. De um modo geral, a desinformação faz com que, quer os doentes, quer aqueles que o rodeiam, se sintam pouco à vontade para o fazer – perante a possibilidade de se “meter a pata na poça”, preferem ignorar o assunto.

Ao mesmo tempo, nós, técnicos de Saúde Mental, esforçamo-nos por informar, por contribuir para a desmistificação destas perturbações, na esperança de que, mais cedo ou mais tarde, possamos todos falar delas tal como falamos de outras perturbações físicas.

Há uma tremenda necessidade de tornar claro que estes transtornos não têm nada a ver com a força de cada um, nem o seu tratamento depende apenas da vontade do doente. Trata-se de doenças do cérebro, que nalguns casos acarretam consequências graves para o doente, dividem famílias e podem levar ao suicídio.

Em relação à perturbação bipolar, por exemplo, sabe-se hoje que os pacientes apresentam pequenas alterações em regiões chave do cérebro que são responsáveis pela regulação das emoções, mas ainda não se sabe porquê. Num futuro que se espera próximo, talvez seja possível realizar despistes fisiológicos que permitam o diagnóstico destas perturbações, como acontece em relação a tantas outras doenças, permitindo que o tratamento seja ainda mais célere e eficaz.

TRANSTORNO DE ANSIEDADE SOCIAL (FOBIA SOCIAL)


Quase todas as pessoas já experimentaram níveis de ansiedade consideráveis perante uma situação nova que envolva, por exemplo, um evento social repleto de desconhecidos. O medo de falhar e/ou de nos expormos ao ridículo está normalmente por detrás desta insegurança que, aparte uma noite mal dormida e alguma aceleração, acaba por deixar poucas marcas. Ninguém pode afirmar que sofre de fobia social só porque fica nervoso na véspera dos exames ou porque se preocupa com a possibilidade de algo não correr bem num evento importante. De resto, e tal como já tenho dito, estes medos são saudáveis, na medida em que nos protegem, tornando-nos mais atentos aos pormenores, mais vigilantes em relação aos nossos potenciais erros e distracções.

No transtorno de ansiedade social ou fobia social o desconforto emocional, o medo e as preocupações são excessivos, desproporcionais e a pessoa sente-se descontrolada. Trata-se de um medo irracional de determinadas situações ou ambientes, que acaba por comprometer quase sempre as relações afectivas e profissionais do indivíduo. Nestes casos, o mal-estar provocado pelo medo exacerbado pode desencadear sinais e sintomas como rubor, tremores, aceleração do batimento cardíaco, tensão muscular, náuseas, sudorese (nas mãos, por exemplo), dores ou desconforto abdominal e tonturas.

Este transtorno pode ter início na infância, mas é na idade adulta que se torna particularmente perceptível – quando diariamente as interacções sociais causam um medo excessivo, levando a que a pessoa em causa constranja cada vez mais as suas saídas. Actividades banais como o preenchimento de um formulário com pessoas ao redor ou comer em locais públicos podem transformar-se em situações muito penosas para alguém que sofra desta perturbação.

Outros sinais e sintomas (emocionais) deste transtorno:

  • ·  O doente evita situações em que possa ser o centro das atenções.
  • ·  Nas crianças com este transtorno tende a haver uma preocupação excessiva com o embaraço na frente dos colegas, mas não necessariamente na frente dos adultos.
  • ·  Medo intenso de estar em situações que envolvam a presença de desconhecidos.
  • ·  Medo excessivo de ser criticado e/ ou avaliado.
  • ·  Medo de parecer nervoso.
  • ·  Medo de encontrar pessoas com poder / com autoridade.
  • ·  Ataques de pânico perante as situações geradoras de ansiedade.


Outros sinais e sintomas físicos:

  • ·  Palpitações.
  • ·  Evitar o contacto visual.
  • ·  As crianças com fobia social podem ter ataques de choro ou de fúria, agarrando-se aos pais.
  • ·  Mãos frias.
  • ·  Diarreia.
  • ·  Voz trémula.
  • ·  Boca seca.
  • ·  Desequilíbrio – a pessoa está tão preocupada em como andar ao passar por um grupo de pessoas, que acaba por perder o equilíbrio.


Estima-se que 3 a 13 por cento das pessoas nos países ocidentais sofram deste transtorno nalgum momento das suas vidas, sendo esta perturbação significativamente mais comum entre as mulheres do que entre os homens. Se os pais ou um irmão de uma determinada pessoa sofrerem deste transtorno, aumenta o risco de aparecimento da doença.

Algumas experiências emocionalmente difíceis podem estar por detrás deste transtorno. Por exemplo, as crianças que sofreram de assédio moral, ridicularização ou rejeição são aparentemente mais vulneráveis à fobia social, comparadas com outras pessoas. O abuso sexual ou um conflito familiar intenso são outros factores relevantes.

A Psicoterapia, em combinação com determinados medicamentos, é considerada pela maioria dos especialistas, como o tratamento mais eficaz para este transtorno. É através dela que a pessoa passa a ver-se a si mesma e aos seus problemas de uma forma mais realista, lidando com cada situação de forma progressivamente mais eficaz.

CUIDAR DE UM FAMILIAR IDOSO


Enquanto terapeuta familiar, trabalho muitas vezes com pessoas que se sentem “ensanduichadas” entre os afazeres relacionados com a família nuclear, e que incluem os cuidados prestados aos filhos, e os cuidados que são prestados aos pais e/ou avós idosos. Com a esperança média de vida a aumentar, não é fácil dar resposta a todas as solicitações, especialmente se tivermos em consideração que a maior parte destes cuidadores ainda trabalham fora de casa.


A verdade é que oito em cada dez pessoas encarregues de cuidar de um familiar que esteja de algum modo dependente acabam por sofrer de stress e ansiedade, independentemente das características sociodemográficas. Por questões afectivas, mas também financeiras, é sobre os familiares directos, e em especial as filhas, que recai a assunção dos cuidados prestados aos idosos dependentes.



Nalguns casos estes cuidados potenciam o aparecimento de comportamentos desajustados, que prejudicam a relação familiar. As consequências negativas vividas pelo cuidador – que trata do familiar idoso do ponto de vista físico, psicológico e social - estão directamente relacionadas com o isolamento social e com o sentimento de solidão.



A pressão associada à multiplicidade e à sobrecarga de tarefas afecta a saúde física e emocional do cuidador, comprometendo, claro, a sua própria capacidade para ajudar quem quer que seja.


Como refiro tantas vezes em sede de terapia, é preciso sabermos cuidar de nós para que estejamos prontos a amparar os outros. Dar o melhor de nós àqueles que amamos não implica super-poderes. Em muitos casos implica precisamente o contrário: a assunção de que é impossível fazer tudo sozinhos.

DEPRESSÃO PÓS-PARTO E INTELIGÊNCIA EMOCIONAL


Já aqui tenho falado sobre a ambiguidade que circunda o diagnóstico da depressão pós-parto. Apesar de se tratar de uma perturbação conhecida e cada vez mais discutida nos meios de comunicação social, não posso deixar de referir que muitas mulheres estão literalmente dependentes da sensibilidade dos clínicos para que possam receber o devido acompanhamento. Tratando-se de uma experiência claramente positiva, o nascimento de um filho pode desencadear uma série de mudanças (fisiológicas e emocionais), que se traduzem, em muitos casos, em dor, ansiedade e depressão. 13 a 16 por cento das mulheres sofrem desta perturbação quando dão à luz pela primeira vez; no segundo nascimento os números sobem para 30 a 40 por cento.


Nem todas as mulheres são devidamente diagnosticadas, o que acaba por comprometer a sua recuperação. Mais: muitas destas mulheres chegam mesmo a sentir-se rejeitadas e incompreendidas – quer por familiares e amigos, quer pelos clínicos que as acompanham.


A verdade é que nem todos os clínicos têm formação em Psicologia ou em Inteligência Emocional. Sendo a Inteligência Emocional a competência que nos permite identificar e gerir as próprias emoções, bem como as dos outros, de forma construtiva, trata-se de uma capacidade que não pode ser desvalorizada. Se um médico ou um enfermeiro for capaz de aceder às emoções de cada paciente e de reflectir sobre elas, a qualidade do seu desempenho melhorará, permitindo que as mulheres nestas circunstâncias aprendam a lidar com as suas próprias emoções.


Este não é, ou não deve ser, um trabalho exclusivo de Psicólogos e Psiquiatras. Trata-se de providenciar a estas pessoas o respeito e a compreensão de que necessitam para que, eventualmente, possam ser acompanhadas em consultas de especialidade. Para algumas, bastará o conforto de poderem falar sobre emoções contraditórias desde o início da experiência da maternidade, precisamente para evitar que uma depressão grave possa instalar-se.


Sendo a Inteligência Emocional uma competência que pode ser aprendida / desenvolvida em qualquer fase da vida, todos os profissionais de saúde deveriam estar disponíveis para investir em formação nesta área. Este passo pressupõe a vontade de melhorar o próprio desempenho, o desejo de se estar atento e emocionalmente consciente das necessidades de cada paciente.

CRISE NO CASAMENTO


Desesperados. Se eu tivesse de resumir a forma como se sentem as pessoas que me procuram em sede de terapia conjugal, diria que o desespero é a emoção predominante. Como se imagina, não é propriamente de ânimo leve que alguém decide escancarar a sua intimidade com um estranho - mesmo que esse estranho seja um especialista em terapia familiar.


Cada caso é único. Cada pessoa carrega as suas fragilidades. E todos os dias me surpreendo com os detalhes das histórias de vida que me são dadas a conhecer. Mas independentemente dessas especificidades, habituei-me há muito tempo a ver para além da superfície. Independentemente do nome que é dado aos problemas, independentemente dos temas sobre os quais versam as discussões, independentemente até da forma como o casal discute, eu sei que aquilo que está por detrás do pedido de ajuda (e consequentemente por detrás da crise conjugal) é um problema de vinculação. O que quero dizer é que quando deixamos de nos sentir seguros dentro da nossa relação, quando deixamos de sentir que a pessoa que amamos é capaz de nos amparar, de estar "lá" quando é preciso, sentimo-nos alarmados. Como nem todas as pessoas funcionam da mesma maneira, existem formas muito diferentes de exteriorizar esta insegurança. Quando os "gritos" de ajuda, ou os pedidos de colo, como prefiro chamar-lhes, não são claramente entendidos pelo outro, sentimo-nos frágeis, refilamos, amuamos, refilamos e, não raras vezes, alimentamos ciclos viciosos.


Trabalhar com casais implica perceber a dinâmica que entretanto se instalou. Muito além das dificuldades de comunicação, a que também importa dar resposta, é fundamental conseguir que cada um dos membros do casal seja capaz de compreender de que forma estará a alimentar aquilo a que eu chamo de "discussões perigosas". Esse auto-conhecimento é um dos primeiros passos para que ambos compreendam o desespero do outro. É que, não raras vezes, a dor é tão grande, e as discussões são tão destrutivas, que se torna difícil vislumbrar alguma esperança e o cônjuge começa a ser visto como um adversário. Ninguém está à espera de ser magoado pela pessoa que ama. Ninguém está à espera de sofrer tamanha desilusão. Felizmente, o desespero pode dar lugar à segurança – o importante é pedir ajuda.



A IMPORTÂNCIA DOS IRMÃOS


A maior parte dos casais com quem trabalho têm (ou manifestam o desejam de ter) mais de um filho. Em Portugal, só os constrangimentos financeiros parecem impedir a realização destes planos, comuns à maioria das famílias. A experiência da parentalidade é normalmente associada ao desgaste dos primeiros anos de vida das crianças, mas também implica quase sempre a descoberta de uma nova forma de amor – avassalador, único -, pelo que muitos pais acabam mesmo por ultrapassar os obstáculos e planear uma nova gravidez. Alguns manifestam mesmo a vontade de evitar ter filhos únicos, reconhecendo que a existência de irmãos é uma mais-valia para o crescimento de todas as crianças. De facto, não será preciso ser-se profissional de Terapia Familiar para perceber que o desenvolvimento psicológico de uma criança é enriquecido pela companhia de irmãos.


As investigações em Psicologia da Família podem, sim, ajudar-nos a compreender a extensão deste impacto. Por exemplo, sabia que a relação entre irmãos tem uma influência considerável no nosso desenvolvimento social e emocional enquanto adultos? Se é verdade que os pais são os principais modelos de educação dos filhos e que a sua influência não deve ser subvalorizada, também é certo que não devemos ignorar a influência dos irmãos. São os pais que ensinam aos filhos as boas maneiras, mostrando-lhes como devem comportar-se em público, ou o que não devem fazer quando estão à mesa. Mas os irmãos são modelos mais eficazes no que diz respeito aos comportamentos menos formais – é com eles que as crianças aprendem como devem comportar-se na escola ou na rua. Mais importante: é com os irmãos (mais velhos) que se aprende a ser admirado pelo grupo de pares e a enfrentar a maior parte das situações do quotidiano. Afinal, os irmãos acabam por partilhar os mesmos círculos ao longo do dia, funcionando como agentes socializadores. É através deles que, não raras vezes, se percebe o que está por detrás, por exemplo, de alguns comportamentos anti-sociais.


Muitas investigações nesta área evidenciam que uma criança pode adoptar comportamentos indesejáveis, como o consumo de tabaco ou de bebidas alcoólicas, a partir da exposição aos comportamentos dos irmãos e/ ou dos amigos dos irmãos. Uma adolescente tem maior probabilidade de engravidar se tiver uma irmã mais velha que tenha sido mãe durante a adolescência.


Ora, estes dados ajudam-nos a definir estratégias mais eficazes para proteger o desenvolvimento das crianças.


Hoje sabemos que a relação positiva entre irmãos aumenta a probabilidade de as crianças se tornarem adolescentes e adultos mais estáveis do ponto de vista emocional. Para que a influência positiva dos irmãos mais velhos seja maximizada, uma das coisas que os pais podem fazer é ajudar a fomentar uma relação próxima entre os irmãos desde o início.


Importa salientar que a diferença de idades entre os irmãos ou o género não faz qualquer diferença. O que é realmente importante são as habilidades sociais que as crianças aprendem nos primeiros anos de vida e que podem usar para desenvolver um relacionamento positivo com um irmão. É por isso que é importante que os pais incentivem os seus filhos a envolver-se através de um relacionamento marcado pelo respeito mútuo, pela cooperação e pela capacidade para gerir os problemas.


As crianças que crescem como filhas únicas podem não ser necessariamente menos competentes socialmente do que as que crescem com os irmãos, mas têm uma probabilidade maior de desenvolver as habilidades sociais através de amigos. Neste caso, compete aos pais pensarem em estratégias para promover o contacto social do seu filho com outras crianças.


Claro que os pais também podem encorajar os seus filhos a desenvolver relações afectivas próximas com os primos e/ou com os filhos dos amigos, o que acaba por ser muito positivo porque permite que as crianças tenham uma oportunidade para desenvolver competências sociais que provavelmente não adquiririam se estivessem limitadas à interacção com os pais e professores.


Claro que nem todas as crianças se revelam parecidas com os seus irmãos mais velhos. Há até muitas que se debatem com o desafio de trilhar o seu próprio caminho e ser diferente dos irmãos ou irmãs mais velhos. Quando existe uma pressão muito forte para que a criança esteja à altura do(s) irmão(s) mais velho(s), pode acontecer que esta se esforce por sobressair numa área diferente (como o desporto, as artes ou até o humor), precisamente numa tentativa de aliviar a pressão. Este mecanismo de defesa levá-la-á a descobrir quem é e o que é importante para si.


Crescer numa família onde exista(m) outra(s) criança(s) transforma o ambiente da criança em termos sociais, cognitivos e emocionais. As crianças aprendem coisas com as outras crianças da casa, assim como aprendem coisas em ambientes mais “adultos”.



VIDA SOCIAL DO CASAL DEPOIS DO NASCIMENTO DOS FILHOS



Fui recentemente contactada pela revista Pais & Filhos para dar o meu contributo a propósito do tema "Vida social do casal depois do nascimento dos filhos". (Quase) Todos os adultos têm a noção de que a chegada de um filho implica algumas restrições no que diz respeito à vida social. Mas até que ponto? Implicará esta mudança o total afastamento dos amigos? Será a gravidez sinónimo de "Adeus, boa vida?". Partilho aqui as minhas respostas.






Na sua prática clínica encontra frequentemente este tipo de «queixas»?
Este é um assunto que acaba por ser abordado em praticamente todos os processos de terapia de casal. Quando há filhos pequenos, é usual ouvir queixas acerca do afastamento em relação ao grupo de amigos. Os casais com filhos adolescentes queixam-se muitas vezes pelo facto de não saberem como recuperar a sua vida social - afastaram-se durante muito tempo dos amigos e, a páginas tantas, vêem a sua vida restrita aos afazeres.

É mais frequente as mulheres sentirem-se sozinhas e solitárias do que os homens?
As queixas são extensíveis a homens e mulheres. No entanto, e porque ainda vigora alguma sobrecarga feminina no que aos cuidados dos filhos e às tarefas domésticas diz respeito, são as mulheres que mais frequente e mais claramente expressam a sua insatisfação. Não raras vezes aquilo que é manifestado é precisamente o desejo de se sentirem compreendidas pelo cônjuge. Oiço, por exemplo, frases como "Gostaria de ter mais amigos" ou "Estamos muito centrados nas crianças".

De acordo com a sua experiência, a que se deve este tipo de situação?
O nascimento do primeiro filho é uma etapa que tem tanto de bela como de turbulenta. Nenhum adulto está 100% preparado para as mudanças que ocorrem nesta fase do ciclo de vida, pelo que é preciso tempo para que os membros do casal desenvolvam novas competências, implementem estratégias de negociação e reconheçam os benefícios dos recursos de que dispõem. Por exemplo, numa fase inicial os jovens pais sentir-se-ão legitimamente receosos quanto à possibilidade de deixarem o seu bebé com familiares ou amigos para que possam sair. No entanto, aquilo que é expectável é que ao fim de algum tempo essa confiança surja e o papel parental não funcione como aglutinador dos outros. Infelizmente, é nesta altura que muitos casais enfrentam sérias dificuldades de comunicação - em larga medida associadas à irritabilidade provocada pelos sonos entrecortados, mas também devido à inexistência de competências sólidas anteriores à vinda dos filhos. Da assertividade conjugal, isto é, da capacidade de cada um dos membros do casal para expressar de forma clara e honesta as suas necessidades, depende a saúde da relação conjugal. Ora, se é possível gerir durante algum tempo os altos e baixos de uma relação sem prestar atenção a este pilar, o mesmo não é verdade a partir do momento em que há filhos.

As grávidas e recém mães centram-se apenas na gravidez e no bebé, descurando as relações sociais?
Não posso fazer uma generalização. Felizmente, existem muitas mulheres que reconhecem a importância dos outros papéis nas suas vidas. Mas importa salientar que é natural e legítimo que uma mulher se centre no bebé e no papel maternal, podendo porventura dar menos atenção, durante algum tempo, à família alargada e aos amigos. Tal como acontece aquando da formação do casal / início do namoro, em que os membros do casal se fecham sobre si mesmos, como se o mundo "lá fora" pouco importasse, também nesta fase é saudável que os membros do casal explorem o papel parental, atribuindo menor importância a saídas com amigos. À medida que o tempo passa - tanto no namoro, como depois do nascimento do primeiro filho - espera-se que o casal volte a explorar a sua rede social (quer individualmente, quer enquanto casal).

As afinidades só se mantêm com quem já tem filhos há pouco tempo?
É natural que, numa fase inicial, as mães e os pais se sintam mais próximos dos amigos que estão a viver a mesma etapa do ciclo de vida. De resto, a partilha de experiências é tão saudável quanto o apoio da família de origem. É através dela que muitos pais e mães têm oportunidade de desmistificar algumas questões e de se verem a si mesmos como "normais". O facto de existirem pessoas próximas que estão, naquele momento, a viver angústias, medos e preocupações semelhantes é uma fonte de proximidade. Mas cada caso é único e especial e há muitos casais que mantêm o contacto com amigos que não têm filhos, reivindicando, precisamente, a vontade de sair com adultos e descentrar-se dos assuntos relacionados com as crianças.

A menor disponibilidade até para sair à noite e ir para ambientes de fumo, ou o sono de grávida ou as exigências de horários rígidos do bebé são factor de afastamento?
De um modo geral, os casais referem-se à gravidez como um período de união. Com certeza que existem excepções. De resto, quanto mais pobre for a comunicação entre os membros do casal, maior será a probabilidade de a grávida se sentir incompreendida e de o marido não ser capaz de se adaptar às mudanças associadas a esta fase. Mas a maior parte das queixas prende-se com o que (não) acontece ao fim de alguns meses depois do parto. A insatisfação não está tão associada às saídas nocturnas, que em muitos casos já não aconteciam antes da gravidez em função dos compromissos profissionais, mas antes à total incapacidade para programar saídas entre adultos (a dois ou em grupo).

Passado o entusiasmo inicial é normal sentirem a solidão e a falta de vida própria?
Ser pai ou mãe é com certeza muito mais do que viver o entusiasmo inicial. A maior parte dos casais que me procura não se queixa da presença dos filhos. Queixar-se-ão, sim, da incapacidade para conversar sobre as alternativas. O que acontece é que o desgaste toma muitas vezes conta da vida da família, sendo os dois membros do casal vítimas da multiplicidade de afazeres, e a comunicação falha. Por vezes o que falta é precisamente o reconhecimento de que ser pai e mãe também é cansativo e que é normal sentir falta de outras coisas. A maior parte dos casais que me procuram dá o seu melhor no que diz respeito ao papel parental. Investem toda a sua energia no bem-estar dos seus filhos, descurando por vezes a própria relação conjugal.

Como é que se pode antecipar e evitar chegar a esse estado?
Tal como acontece a propósito de outras dificuldades da vida familiar, é importante que os membros do casal se concentrem em identificar as suas necessidades e transmiti-las ao cônjuge, dando-lhe oportunidade de vir ao seu encontro. A maior dificuldade está precisamente na capacidade de expressar estas necessidades de forma clara evitando um tom acusatório. Como os nervos estão muitas vezes à flor da pele, é possível que as queixas de um se transformem, aos ouvidos do outro, em críticas, ataques pessoais, que fomentam a escalada em vez de promover o diálogo. Os membros do casal devem reconhecer que são, antes de mais, vítimas das circunstâncias, pelo que é infrutífero alimentar qualquer braço-de-ferro. O cônjuge não é o inimigo, não é o adversário. Por outro lado, é fundamental que os pais reconheçam que não existem super-homens ou super-mulheres, pelo que não há por que tentarem fazer tudo sozinhos. Pedir ajuda não deve ser uma fonte embaraço, mas um sinal de competência. A presença de familiares e amigos é uma ajuda que não deve ser descartada.

Concorda que a entrada para a escola pode abrir uma porta para a natural socialização da criança mas também dos pais?
Infelizmente, esta etapa nem sempre corresponde a uma janela de oportunidades, já que a entrada dos filhos para a escola acarreta também para a generalidade dos pais uma fonte de preocupações. Ora, se a comunicação tiver sido desgastada pelos primeiros anos de parentalidade, é expectável que a acumulação de afazeres (acompanhamento das crianças, atenção aos trabalhos de casa, assunção das despesas) tome conta do quotidiano conjugal.

Os filhos não têm de ser vistos como prisão. Mas como explicar de forma tranquila a pais e mães que é normal e saudável quererem ter vida para além dos filhos e que isso só fará deles melhores pais porque serão pessoas mais realizadas? E como explicar que isso não é igual a não gostarem suficientemente dos filhos?
A explicação passa muito pelo bem-estar das próprias crianças. A vinculação segura entre a criança e os seus pais é fundamental para que possa estruturar a sua personalidade de modo saudável, mas isso não quer dizer que a vinculação dependa da presença constante dos pais. Pelo contrário, os filhos precisam de saber que os pais também são capazes de resolver as suas próprias questões e de lutar pelo próprio bem-estar.

MAIS SONO, MENOS DEPRESSÃO


Já aqui falei algumas vezes sobre a importância do sono relativamente ao nosso bem-estar. Não é só a nossa saúde física que depende de hábitos de sono saudáveis – é também a nossa saúde psicológica. De resto, as perturbações do sono são comummente associadas a transtornos depressivos e ansiosos. Um estudo recente veio reforçar esta ideia, centrando-se nos hábitos e na saúde mental de uma amostra de mais de 15 mil adolescentes. Segundo esta pesquisa, os jovens com hábitos de sono previamente definidos pelos pais são significativamente menos propensos a sofrer de depressão e de ideação suicida. Aparentemente, o facto de os progenitores definirem a hora a que os seus filhos se deitam tem um efeito protector prolongando a duração do sono e aumentando a probabilidade de os adolescentes dormirem o suficiente.


Os resultados mostram que os adolescentes cujos pais fixaram a hora do deitar para a meia-noite ou mais tarde eram 24 por cento mais propensos a sofrer de depressão e 20 por cento mais propensos a ter ideação suicida do que os jovens cuja hora de deitar estava definida para as 22h ou mais cedo.


Os adolescentes que relataram que costumam dormir apenas 5 horas (ou menos) eram 71 por cento mais propensos a sofrer de depressão e 48 por cento mais propensos a pensar em cometer suicídio do que aqueles que relataram dormir oito horas por noite.


O estudo mostrou que os jovens que relataram que “normalmente dormem o suficiente” são significativamente menos propensos a sofrer de depressão e ideação suicida, reforçando assim a tese de que o sono inadequado desempenha um papel crucial na origem da depressão. Mais: a manutenção de hábitos de sono saudáveis parece ser uma medida preventiva contra a depressão e um tratamento para esta perturbação.


Entre os adolescentes que fizeram parte do estudo, a duração média do sono foi de sete horas e 53 minutos, contrastando com o que é recomendado pela Associação Americana da Medicina do Sono para esta faixa etária (nove horas ou mais).


Os participantes com hora de deitar fixada para as 22h ou mais cedo relataram que normalmente dormiam uma média de oito horas e 10 minutos, o que perfaz mais 33 minutos do que a média dos adolescentes com hora de dormir marcada para as 23h (dormem em média sete horas e 37 minutos) e mais 40 minutos do que aqueles com hora de deitar definida para a meia-noite ou mais tarde (dormem em média sete horas e 30 minutos).


A privação crónica de sono pode:


• Afectar a gestão emocional, comprometendo a capacidade para responder a estímulos negativos;
• Produzir mau humor, dificultando a capacidade para lidar com o stress diário;
• Prejudicar as relações dos adolescentes com os amigos e com os adultos à sua volta;
• Afectar o pensamento, a concentração e o controlo dos impulsos.


A intervenção comportamental junto dos pais e dos adolescentes sobre a importância dos hábitos associados a uma higiene do sono saudável pode funcionar como uma excelente medida preventiva dos transtornos depressivos e da ideação suicida.

LIDAR COM O LUTO


Falar-se sobre o luto continua, em certa medida, a ser um tabu. De resto, é-nos quase sempre difícil abordar os temas que envolvem a morte. Mas falar de luto é muito mais do que falar sobre a perda física de alguém de quem gostamos. É possível vivenciar o luto aquando do fim de um casamento, numa situação de doença grave ou depois de um acidente cujas consequências implicam alguma forma de incapacidade. Mais cedo ou mais tarde, todas as pessoas têm de lidar com o luto – e podem fazê-lo de uma forma mais ou menos ajustada.


Até há relativamente pouco tempo, o luto era descrito como um processo mais ou menos padronizado, dividido por fases, cada uma marcada por um estado emocional. Hoje sabe-se que o luto é diferente de pessoa para pessoa. Não há uma forma “normal” de viver o luto. Cada pessoa poderá experimentar emoções diferentes, muitas vezes combinadas numa espécie de turbilhão avassalador. Os estados emocionais podem variar entre a negação, a tristeza, a raiva, a confusão, o desespero e até a culpa.


Nalguns casos, este sofrimento traduz-se num conjunto de manifestações físicas que incluem problemas de sono, alterações no apetite, quebras de energia e dores no corpo.


A duração do luto também pode variar de pessoa para pessoa – nalguns casos, este processo pode implicar vários meses, mas também existem pessoas que atingem a aceitação e a adaptação apenas ao fim de alguns anos.


Lidar com o luto implica sobretudo:


Ser capaz de expressar as emoções de forma clara. É importante aceitar que todos os sentimentos associados à perda são normais. Algumas pessoas reprimem a manifestação dos seus pensamentos e dos seus sentimentos por temerem que os seus familiares e amigos possam julgá-las (ou até vê-las como “doidas”). Fingir não é o caminho. A manifestação clara das emoções é a forma mais ajustada de lidar com o sofrimento. Assim, se alguém lhe perguntar “Como vai?”, tenha a coragem de dizer como se sente.


Organizar os pensamentos. Escrever regularmente (num caderno, num diário, num blogue, etc.) é uma forma terapêutica de lidar com a perda. Não se preocupe com os erros. Centre-se no reconhecimento e na aceitação dos seus sentimentos. Releia aquilo que escreveu antes e perceberá que, com o tempo, aparecem mudanças. Esta actividade ajudá-lo-á a perceber que todas as emoções são “normais” e que a sua intensidade diminui gradualmente.


Enfrentar memórias. Mais cedo ou mais tarde, virá o confronto com situações potencialmente desconfortáveis. Não tenha medo de chorar à frente de outras pessoas. Fugir das actividades que o façam lembrar a pessoa que perdeu não o ajudará. Dê a si mesmo a oportunidade de planear essas actividades e aceite alguns retrocessos. Rever fotografias, cartas ou postais faz parte do luto.


Adiar mudanças ou decisões importantes. No meio da dor, pode tornar-se difícil manter o discernimento necessário à tomada de decisões, como uma mudança de casa ou outras alterações que envolvam compromissos financeiros. Na impossibilidade de adiar decisões, aconselhe-se com familiares e amigos.


Cuidar da saúde. A nossa saúde física anda de mãos dadas com a saúde emocional, pelo que, mais do que nunca, é fundamental fazer uma alimentação cuidada, manter uma boa higiene do sono e limitar o consumo de bebidas alcoólicas. Além disso, a prática regular de exercício físico pode aliviar a ansiedade.


Ser paciente. Ainda que fosse desejável que o luto durasse apenas alguns instantes ou que pudéssemos ultrapassar o sofrimento da noite para o dia, esperar por mudanças drásticas e repentinas é absolutamente irrealista. É preciso tempo para que os sinais e sintomas associados ao sofrimento possam diminuir gradualmente. Para muitas pessoas, só ao fim de mais ou menos seis meses são visíveis mudanças.


Procurar ajuda. Há pessoas para quem a passagem do tempo não implica qualquer mudança, muito menos algum alívio. Se se sente preso a uma perda, é possível que esteja em risco de depressão, pelo que importa pedir ajuda especializada.

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